Expedição “Diálogos na Caatinga” aproxima ciência e saberes locais em cinco estados do Nordeste
Com participação do PELD PNCA, iniciativa percorreu mais de 6 mil quilômetros, passou por sete Unidades de Conservação e dialogou com cerca de 700 pessoas

Mais de 6 mil quilômetros de estrada, cinco estados, sete Unidades de Conservação e encontros com cerca de 700 pessoas. Entre 13 de julho e 6 de agosto de 2026, a Expedição “Diálogos na Caatinga” percorreu diferentes regiões do Nordeste com uma proposta que foi além de apresentar à população o conhecimento produzido sobre a biodiversidade do bioma: ouvir quem vive na Caatinga e colocar saberes científicos e locais em diálogo.
A iniciativa reuniu pesquisadoras, pesquisadores e estudantes da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e passou por mais de 20 comunidades e povoados no Piauí, Bahia, Ceará, Rio Grande do Norte e Pernambuco.
Um dos pontos da expedição foi o Parque Nacional do Catimbau, em Pernambuco, onde a participação do PELD esteve associada a ações de comunicação pública da ciência e de escuta dos conhecimentos da população local. Somente nessa etapa, mais de 80 pessoas da região foram alcançadas.
No Catimbau, ciência construída a partir da conversa
No Parque Nacional do Catimbau, as atividades envolveram diferentes grupos que convivem diariamente com a biodiversidade e com as transformações da Caatinga.
A equipe dialogou e realizou atividades com brigadistas do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), integrantes de uma cooperativa de mulheres, moradores do Muquém e da comunidade quilombola Serra do Catimbau.
Durante os encontros, foram apresentados materiais de popularização da ciência desenvolvidos pelo PPBio Rede Semiárido RABECA, acompanhados por jogos e outras dinâmicas educativas sobre a Caatinga e suas espécies.
Jogos da memória e de associação, quebra-cabeças, materiais para colorir, fotografias, adesivos, broches e outras ferramentas ajudaram a transformar o conhecimento científico em ponto de partida para conversas sobre os organismos encontrados na região e sobre as pesquisas realizadas no bioma.
E os pesquisadores voltaram cheios de novos conhecimentos!
As pessoas que decidiram participar da pesquisa etnobiológica também foram convidadas a contar o que sabem sobre as espécies locais, como as reconhecem, quais nomes utilizam, que relações estabelecem com elas e de que maneira esses organismos fazem parte de seu cotidiano.
As entrevistas realizadas no Catimbau investigaram ainda as percepções sobre a participação das mulheres na conservação do meio ambiente, ampliando o olhar sobre quem produz e mantém conhecimentos relacionados à biodiversidade da Caatinga.
E esse processo de escuta terá continuidade. Os conhecimentos compartilhados pelas comunidades serão articulados aos conhecimentos científicos e utilizados na preparação de uma nova expedição de comunicação da ciência, prevista para o próximo ano.
Uma expedição por diferentes Caatingas
A expedição passou pelos parques nacionais da Serra da Capivara, Boqueirão da Onça, Furna Feia e Catimbau; pelas estações ecológicas do Raso da Catarina e de Aiuaba; e pela Floresta Nacional de Negreiros.
A rota partiu do Recife e atravessou municípios como Petrolina, São Raimundo Nonato, Sento Sé, Paulo Afonso, Aiuaba, Nova Olinda, Juazeiro do Norte, Buíque, Sertânia, Caicó e Mossoró, antes do retorno à capital pernambucana.
Em cada local, as atividades foram construídas de acordo com os grupos participantes. A expedição esteve com comunidades rurais e quilombolas, associações de mulheres, cooperativas, ceramistas, brigadistas e participantes de feiras locais.
Essa diversidade também permitiu observar que não existe apenas uma forma de conhecer a Caatinga. Uma mesma espécie pode receber diferentes nomes, usos e significados dependendo da região e das experiências de quem convive com ela.
“A expedição busca promover uma troca entre o conhecimento científico produzido pelas pesquisadoras e pelos pesquisadores e os saberes das pessoas que vivem na Caatinga e convivem com esse ambiente desde o nascimento. A integração desses conhecimentos é essencial para fortalecer ações de conservação da Caatinga, tanto do ponto de vista científico quanto cultural e social”, explica a professora Carla Ribas, da Ecoversa — Grupo de Estudos em Diversidade, Etnoecologia e Comunicação do Departamento de Zoologia da UFPE e coordenadora do projeto.
Comunicação pública como troca
A Expedição “Diálogos na Caatinga” foi desenvolvida pelo Projeto Associado 6 – Comunicação Pública da Ciência sobre a Biodiversidade da Caatinga, do PPBio Rede Semiárido RABECA, em parceria com o projeto de extensão “A biodiversidade da Caatinga sob os olhares de sua gente”, da UFPE, e contou com a colaboração do ICMBio.
A experiência parte de uma concepção de comunicação pública da ciência em que as populações que vivem nos locais estudados não são apenas público das pesquisas.
Elas também produzem conhecimentos sobre os ambientes, espécies e relações ecológicas que fazem parte de suas vidas.
“A proposta é construir um diálogo entre academia e sociedade, permitindo que os produtos de comunicação sejam elaborados de forma participativa, ouvindo e envolvendo todas as partes”, destaca Carla Ribas.
A presença do PELD em ações como a realizada no Catimbau reforça justamente essa aproximação entre a pesquisa ecológica de longa duração e as pessoas que convivem com os ambientes estudados, ampliando os caminhos para que o conhecimento científico circule, seja discutido e também transformado pelo encontro com outros saberes.

O diálogo continua
A viagem realizada entre julho e agosto é a primeira etapa do trabalho. Agora, os relatos, conhecimentos e percepções compartilhados ao longo da expedição serão considerados juntamente com as informações científicas para a produção de novos materiais e atividades de comunicação.
A proposta é que a equipe retorne às comunidades para apresentar e discutir o que foi desenvolvido.
Assim, o conhecimento local não entra na comunicação apenas como tema ou exemplo. Ele participa da escolha do que será comunicado e de como essa comunicação poderá acontecer. No Catimbau e nos demais locais visitados, a expedição mostrou que comunicar a
biodiversidade também pode significar sentar, brincar, perguntar, ouvir e reconhecer que conhecer a Caatinga é um trabalho construído por muitas pessoas e por diferentes formas de olhar para o mesmo ambiente.




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