O colapso de uma planta na Amazônia: experimento do PELD FNC liga alerta para a seca extrema
Monitoramento de 22 anos simulou a falta de chuvas na floresta e mostrou que a redução hídrica fez uma espécie inteira desaparecer da área de estudo

Quando se fala nas consequências das mudanças climáticas na Amazônia, a imagem mais comum é a de rios secos ou de calor intenso. Mas uma pesquisa de longo prazo conduzida pelo Programa de Pesquisas Ecológicas de Longa Duração (PELD FNC/CNPq), na Floresta Nacional de Caxiuanã (PA), mostra que os impactos silenciosos no solo da floresta podem ser fatais para a biodiversidade.
O estudo acompanhou, por mais de duas décadas, os efeitos de secas extremas, como as provocadas pelo fenômeno El Niño, em plantas menores que vivem no chamado sub-bosque (a parte mais baixa da floresta).
Desde 2001, os pesquisadores mantêm um experimento fascinante chamado “Projeto de Estudo da Seca da Floresta” (ESECAFLOR). Em uma área do tamanho de um campo de futebol (1 hectare), eles instalaram painéis plásticos no chão que funcionam como “guarda-chuvas”, bloqueando cerca de 50% da água que cairia naturalmente no solo. Uma outra área do mesmo tamanho foi deixada intacta para servir de comparação.
Ao avaliar os dados coletados em 2010 e 2017, a equipe do pesquisador Leandro Ferreira focou em um arbusto muito comum na região, a Faramea anisocalyx.
O resultado foi drástico: a falta de água no solo afetou diretamente as raízes curtas e superficiais dessa planta. Com o passar do tempo, as plantas foram diminuindo em altura e espessura até, literalmente, desaparecerem da área onde a seca foi simulada.
Um alerta para o futuro da floresta
O estudo evidencia a fragilidade de espécies que, apesar de comuns, não toleram alterações drásticas no seu microclima.
Se as projeções de que o bioma amazônico enfrentará chuvas cada vez mais escassas se confirmarem, o desaparecimento local dessa espécie serve como um aviso claro. A floresta é um sistema onde tudo está interligado, e o colapso de plantas do sub-bosque pode gerar um efeito cascata em todo o ecossistema.
O trabalho reforça a importância de olharmos para os pequenos detalhes da floresta para compreendermos os grandes impactos globais.
O estudo é apoiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e foi aceito para publicação na Revista Brasileira de Geografia Física.




Comentários