Programa Peld consolida a pesquisa ecológica no Brasil
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Projeto foi concebido há 28 anos e teve mais de R$ 60 milhões em investimentos federais entre 1999 e 2025. Entre 4 a 7 de maio, será realizada em Brasília a 14ª Reunião de Acompanhamento do Programa Peld

A ciência ambiental no Brasil ganhou um pavimento sólido com o Programa de Pesquisa Ecológica de Longa Duração (Peld). Concebido há 28 anos no âmago das reflexões da comunidade científica durante a década de 1990, e executado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o programa concede apoio ininterrupto a uma rede de sítios de pesquisas. São mais de R$ 60 milhões em investimentos federais de 1999 a 2025.
Pedro Meireles do PELD BTS
Hoje, 55 projetos sobre fenômenos ecológicos em todos os biomas brasileiros e o sistema marinho-costeiro estão em vigência, além de um projeto voltado exclusivamente para a comunicação pública da ciência do programa. Entre 4 a 7 de maio pesquisadores do Peld, comitê científico do programa e gestores do CNPq estarão reunidos em Brasília, na sede do conselho, para a 14ª Reunião de Acompanhamento do Programa Peld (https://www.gov.br/cnpq/pt-br/assuntos/noticias/cnpq-em-acao/pesquisa-ecologica-cnpq-realiza-reuniao-de-avaliacao-do-programa-ecologico-de-longa-duracao) e para comemorar seus 28 anos de existência, cujo tema será “Peld 28 anos: Gerações, legados e perspectivas”.
“Ao longo de sua existência, o Programa formou gerações de pesquisadores e pesquisadoras, sendo que alguns desses hoje respondem pela coordenação de sítios Peld, onde fizeram sua formação e trajetória acadêmica”, destacou Fabiola Siqueira de Lacerda, coordenadora dos Programas de Pesquisa em Ecologia e Biodiversidade no CNPq.

Uma das estudantes que se tornou professora universitária e coordenadora de um dos sítios de pesquisa é Thaísa Michelan, do Peld Amazônia Oriental (Amor, pela UFPA). Desde a sua graduação, em 2007, ela acompanha os trabalhos do Peld Planície de Inundação do Alto do Rio Paraná (PIAP), o que foi determinante para sua carreira científica. Ela menciona que o Peld a ajudou a compreender a importância da pesquisa de longa duração, especialmente quando artigos importantes sobre o impacto de secas nas comunidades aquáticas foram publicados.

Em torno de cada grande tema de pesquisa estão especialistas de alto nível que aprofundam reflexões ampliadas sobre políticas de ciência. Os jovens cientistas formados dentro do programa já vêm com uma mentalidade renovada, com uma "cultura da colaboração" e um "DNA peldiano", que os prepara com um olhar para a excelência acadêmica e outro para a transferência de informações para a sociedade.
Construção de cultura de pesquisa ecológica de longo prazo
Nos primeiros anos de existência, o Peld assumiu objetivos iniciais como o fomento da infraestrutura para implementação e manutenção de uma rede de sítios de pesquisa. Mas a trajetória descortinou um programa que ajudou a construir uma cultura de pesquisa ecológica de longo prazo, com desafios logísticos, políticos e de financiamento. As questões abordadas pelo Peld atualmente são transdisciplinares, além do impacto nas políticas públicas, o que também é um desafio para a academia.
São muitas as ameaças acarretadas à natureza pelas atividades humanas: a mineração, a indústria, geração de energia, desertificação, colapso de recursos pesqueiros, segurança alimentar; uma lista que está no cerne do campo de estudo dos cientistas do Peld.
O solo e a zona litorânea brasileira contém uma biodiversidade rica, um campo a ser explorado pelos cientistas. O programa Peld supre esse objetivo. Apoia pesquisas voltadas para a investigação dos padrões de funcionamento dos ecossistemas, inclusive os que se deterioram por causa da ação humana. Por meio dele são formadas redes de informação em cooperação nacional e internacional, com a disponibilização permanente de bases de dados comum ao conjunto de sítios, à comunidade científica em geral e aos demais setores da sociedade. Uma dinâmica que incorpora crises emergentes, como as mudanças climáticas.
O programa integra a Rede Internacional Ilter (International Long Term Ecological Research), cuja missão é desenvolver e fornecer informações científicas sólidas e compreensão preditiva sobre processos globais em amplas escalas temporais e espaciais.
“O Peld tem uma natureza aplicada, buscando entender o funcionamento dos ecossistemas e propor caminhos para a sociedade, informando sobre os ônus e bônus das políticas de utilização de recursos naturais”, considera Marcelo Tabarelli, coordenador do Peld Catimbau, ancorado na Universidade Federal de Pernambuco. Tabarelli iniciou no programa em 2000, como avaliador externo. Em 2012 ele ingressou com um projeto no bioma Caatinga.
Um dos projetos que permanecem no programa ininterruptamente desde que os primeiros sítios Peld foram estabelecidos em 1999 a partir do primeiro edital publicado em 1997 é o Peld do Estuário da Lagoa dos Patos (ELPA). A atual coordenadora, Margareth Copertino, que está no projeto desde seu início, iniciando quando ainda era estudante, reforça que o Peld trouxe a oportunidade de sistematizar e oficializar o monitoramento contínuo e metódico de longo prazo entre os laboratórios, algo que antes era feito de forma descontínua e em curto prazo, durando apenas o período de uma tese ou dissertação. O maior desafio inicial era manter esse monitoramento, custear e ter pessoal em campo.
“O primeiro objetivo do Peld ELPA em cada chamada até hoje é o monitoramento, pois sem esses dados não é possível acompanhar o comportamento do sistema, fazer prognósticos e entender o passado para predizer o futuro”, relata Copertino, demonstrando a precisão da criação do programa.
Atuação junto à sociedade
A busca por especialistas do Peld tornou-se mais recorrente no momento atual entre os gestores públicos e jornalistas para elucidar contratempos que atingem diretamente as pessoas. Por possuir longa série de dados, o programa tem sido responsável por dar respostas a diversas questões práticas. Fabíola Lacerda traz alguns exemplos:
“No derramamento de óleo no litoral nordestino, em agosto de 2019, considerado um dos maiores e mais complexos desastres ambientais registrados no Brasil. No acidente com uma mineradora em Mariana (MG), em 2015, quando as águas do Rio Doce foram atingidas pelos rejeitos de minério; e nas grandes enchentes do Rio Grande do Sul em 2024”, descreve Fabíola. O Peld atua também em outros temas críticos definindo medidas para mitigar efeitos de barragens, nos grandes incêndios do Pantanal de 2020 e 2024, entre outros.
Em outras frentes, pesquisadores se envolvem na formulação de planos de manejo de unidades de conservação, pois a maioria dos sítios se situam nesses espaços protegidos. Além disso, há sítios Peld comprometidos com a ampliação e composição de conselhos gestores de áreas protegidas. Professora da UFPE, Fernanda Oliveira, do Peld Catimbau, contou a experiência ao participar da comissão responsável pelo desenho do Plano de Manejo do Parque Nacional do Catimbau, em Pernambuco, organizada pelo ICMBio.
“No decorrer de uma semana de conversas, os moradores começaram a entender que não estamos impondo proibições, mas sim apresentando estudos que mostram que a continuidade do uso intensivo dos recursos pode levar à degradação da Caatinga, prejudicando a todos”, revelou Fernanda Oliveira, uma pesquisadora formada dentro do Peld, desde o mestrado.
O programa conta ainda com o PELDCom (https://peldcom.eco.br/), voltado a divulgar e popularizar o conhecimento gerado nos sítios de pesquisa. O projeto específico de comunicação foi estabelecido com a Chamada de 2020 e segue em vigor. O PELDCom auxilia os projetos na comunicação da ciência para a sociedade, desenvolve estratégias de comunicação e aprofunda a reflexão teórica sobre o tema. “Buscamos construir modelos de comunicação para estabelecer um ‘diálogo’ sobre a ciência gerada pelos sítios Peld e suas contribuições para a sociedade”, explica a coordenadora do PeldCom, Alessandra Brandão, da Universidade Estadual da Paraíba.
As ações de educação ambiental e ciência cidadã também estão incluídas nos projetos, principalmente como extensão, os quais compartilham o conhecimento produzido pela ciência.
Captação de recursos para as pesquisas
Segundo Fabíola Lacerda, o programa percorreu quase três décadas contando com o investimento do CNPq, e atravessando governos de diferentes tendências políticas durante sua existência com muita resiliência.
“Ao longo dos anos, muitos foram os parceiros que apoiaram financeiramente o Peld: MCTI, CAPES, Fundo Newton e, desde 2012, conta com o fundamental apoio do Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (CONFAP) e das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (FAPs) de diversos estados brasileiros e que respondem pelo cofinanciamento do Peld”, afirmou Lacerda. Ela salienta ainda a parceria com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), o qual apoia o Peld com a proposição de novas questões de estudos e serve no apoio logístico nessas pesquisas.
Por outro ângulo, Marcelo Tabarelli acrescenta que o orçamento do CNPq “funciona como um ‘seed funding’ (dinheiro inicial) para alavancar as ações, mas não necessariamente para manter todas as atividades dentro de cada sítio”. Tabarelli destaca que, além disso, o Peld também se tornou um "selo", permitindo que sítios usem esse reconhecimento para captar outros recursos para seu financiamento.
Origens do Peld
Se olharmos para a ciência no Brasil nos primórdios dos anos 1970 mal veremos a área da ecologia. Havia poucos grupos de pesquisa e pesquisadores isolados, conforme Thomas M. Lewinsohn, professor de Ecologia da Unicamp. No ano de 1976 foram iniciados quatro programas de Ecologia: em Manaus, no Inpa; na Universidade de Brasília; em São Carlos (SP), na UFSCar e na Unicamp. Esses pioneiros firmaram as bases para cooperação e intercâmbio entre os programas.
Como sementes que germinam, os cursos de pós-graduação na área se propagaram. Em meados de 1990 eram 25 cursos. Os pesquisadores e representantes de instituições se reuniam anualmente no Fórum Nacional de Coordenadores de Cursos de Pós-graduação em Ecologia, um terreno propício para formular um programa que permitisse a sistematização da produtividade dos ecólogos e de seus grupos de pesquisa e de ensino. Foi em nome deste Fórum que o CNPq recebeu a proposta para a criação do Programa Integrado de Ecologia (PIE), em 1996, o qual incorporava o Peld.
Fabíola Lacerda informa que o Peld foi criado em 1997 durante a gestão do então presidente do CNPq, José Galizia Tundisi. “Naquela época, os projetos tinham a duração média de três anos e pensar um Programa de Longa Duração era uma ideia inovadora e desafiadora. Sua primeira chamada saiu em 1999 aprovando três sítios de pesquisa e a segunda, ocorrida em 2001, aprovou mais 6 sítios, completando assim os 9 sítios pioneiros do programa”.
Com a chamada de 2024, a mais recente, novos sítios ingressaram no programa, a exemplo do Baía de Todos os Santos (PELD BTS). O coordenador, Igor Cruz, da Universidade Federal da Bahia, ressaltou que o “Selo Peld” trouxe maior visibilidade para o projeto científico, conferindo mais peso ao trabalho e aos relatórios dos pesquisadores junto aos órgãos ambientais.
O encontro com pesquisadores mais antigos na 14ª Reunião de Acompanhamento do Programa Peld gera boas expectativas entre os pesquisadores recém integrados ao programa. Pedro Meireles, que atua na interface da ecologia com microrganismos, pontua que o evento será uma oportunidade para a reflexão: “Momentos de discussão e troca de experiências, onde se pode aprender com outros sítios o que deu certo e o que não deu.” Meireles entende que a ocasião irá revelar a diversidade e o alto nível de pesquisas ecológicas no país.
Texto de Márcia Dementshuk





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